Certa feita, ouvi este causo que me pareceu caber bem numas linhas de prosa.
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Na madrugada amena, o sono da mulher não se incomoda com o barulho de um ou outro carro ouvido longe dali, ou um grilo inconveniente cricrilando sem parar no jardim nem com o marido — mais inconveniente ainda — roncando aos engasgos do seu lado. É o latido distante do cão que a faz abrir o olho. As tábuas da varanda estalam. Há alguém ali. A maçaneta gira. A mulher acorda. Dois olhos arregalados, medo e cotoveladas no marido.
— Deixa eu dormir, Neidinha! Não ‘tô roncando não! — afasta as cotoveladas da mulher com habilidade de quem já está habituado ao trato conjugal.
— Acorda, Fernando, que tem ladrão na varanda! Acorda!
— ‘Tô roncando não… — voltou a dormir.
Batidas ocas e violentas ecoaram pela casa. Fernando Jorge deu um pulo da cama.
— Neidinha, ouviu isso? Tem alguém na porta!
A mulher fez questão de deixar o medo de lado por uns instantes para olhá-lo com aquela feição delicada de “Vou te matar, Fernando Jorge”.
As batidas continuaram. O marido agarrou o primeiro objeto ameaçador que viu, um calhamaço de milhar de páginas sobre os Impostos Brasileiros, e foi até a porta. Quando levava a vista ao olho mágico, uma voz gritou:
— Abre a porta, muié!
No susto, o calhamaço despencou sobre o mindinho desprotegido de Fernando Jorge que uivou de dor. Do outro lado da porta, o bêbado Sílvio Souto da Silva, embora seu estado cambaleante, percebeu a voz masculina:
— Muié!? — soluço. — Quem ‘tá aí que num sou eu? É voz de macho, muié? — mais soluço. — Abre a porta, muié! — forçava a maçaneta.
Fernando Jorge, percebendo se tratar de um visitante acachaçado na varanda, respondeu rispidamente:
— Sai daqui, bafo de pinga! Essa não é sua casa não! Vá procurar em outra vizinhança!
Ao que Souto da Silva respondeu, depois de apoiar-se na porta, porque já estava para cair:
— Muié, fico fora um diazim e ocê já põe um Ricardão no lugar de eu? Eu arranco suas bolas de gude, Ricardão! Ah, se num arranco!
A mulher, a passos miúdos e muito desconfiados, veio do quarto inquirir do marido sobre o cão:
— Porque ele só ‘tá latindo e não morde? Eu disse pra você soltar o Sansão antes de vir pra cama.
Silvio Souto retorceu a cara, deu um soluço, aproximou o ouvido da porta e falou com brandura:
— Muié, isso é voz de fêmea? Que ‘tá acontecendo aí dentro, muié? E que Sansão é esse na cama, muié?
O casal discutiu acaloradamente sobre a culpa de o cão ter ficado preso no canil. O desfecho foi o esperado, Fernando Jorge saindo da casa pelos fundos, com mais velocidade que medo nas pernas e soltando o cão.
Sansão, cansado de só latir, chegou à varanda sem aquela cerimônia canina de rosnar, latir e só depois morder. Já foi pulando no pescoço de Souto da Silva. Com todo o equilíbrio que lhe faltava, o bêbado chegou ao chão antes de o cão fechar a boca. O barulho dos dentes estalou no vazio.
— Muié, que se fez com o totó? Ele ‘tá feio que só. Ai!
Sansão abocanhou a perna do bêbado. Quanto mais Souto da Silva tentava se livrar do cão, mais ele mordia.
— Ah, totó dusinfernu! Vô ensiná ocê a num mordê o dono seu!
O bêbado batia no cão que não lhe largava a perna por safanão nenhum. Então, Souto da Silva abriu e puxou o cinto. Se estivesse em pé, teria rodopiado varanda a fora, mas como estava no chão conseguiu apoio suficiente para ainda chicotear Sansão. O animal se viu impossibilitado de continuar a prestar seus serviços caninos e correu amuado de volta para os fundos.
— Muié… “Você é luz, É raio estrela e luar. Manhã de sol, Meu iaiá, meu ioiô…” — serenateava o bêbado recostado do lado de fora da porta.
Dentro da casa, Fernando Jorge ouviu a mulher esbravejar, indignada de a única serenata que ela escutara naquela casa veio de um bêbado batendo na porta errada. O marido, acordado no meio da noite, de mindinho talvez quebrado e revoltado com o súbito acesso de desafeto da mulher, abriu a porta!
— Muié, sabia que no fundo ocê ainda é caidinha por eu!
— Seu bafo de pinga — Fernando Jorge levantanva o bêbado pelo colarinho —, vou te ensinar a nunca mais bater na porta errada!
O soco do marido faria inveja a qualquer Popó da vida. Fez Souto da Silva voar nocauteado um duplo twist quase carpado.
Pela manhã, Sílvio Souto da Silva acorda babando na sarjeta, sentindo a boca com mais espaço que de costume, uma terrível dor na perna e a estranha sensação de já ter visitado a casa em frente, mesmo sem reconhecer a vizinhança.
Bruno Romaneli
Janeiro/2009
Primo, ameiiii!
Quero um autógrafo!!!
=D
Bjxxxxxxxxxxxxxxxxx
hehehe… boa, meu irmão!
HUIAHUAIhaiu
Muito bom o texto Bruno!! Parabéns pelo trabalhoo!!
Mas…porque a culpa eh sempre do ricardao hein?? HUIAHiua
abraçoo
Oi Bruno Romaneli!!
Obrigada! Gostei tanto que fiz um link lá no Tantim de Cada Tanto (http://sophia-myblog.blogspot.com/2009/04/rir-e-remedio.html) !
Sucessos e parabéns pelo trabalho!