A Culpa de Ninguém É de Todo Mundo

7 09 2008

Originalmente concebi a idéia desse texto para um filme curta metragem, porém passou o tempo e a idéia era ainda apenas uma idéia. Por isso adaptei-a para a prosa, tentando escrevê-la várias vezes. Decidi, por fim, dar um tom mais literário que de costume e finalmente me agradei do texto final. Tenho me impressionado ultimamente com este tema que é recorrente na imprensa e cada vez mais brutal.

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Alva e ocaso. De uma a outro, ela faz-se presente. Do outro a uma, é fervorosa. A história dos dias se repete, ainda com mais intensidade a das noites. A personagem principal é sempre a mesma, os coadjuvantes é que mudam.

A história desta noite tem 2 coadjuvantes. Víctor Paes acaba de entrar no carro. Estica no banco aconchegante do sedan as costas debruçadas por horas sobre incontáveis processos. Abre a janela e respira a brisa fria da noite. Afrouxa a gravata com a sensação de algo encravado na garganta, um grito que não lhe saiu e arranhou-o de largo.

Víctor Paes é homem lapidado a estudo. Nascido em família de classe média de pequeno patrimônio e muitas dívidas, legara o ensino de seus pais. Despendera a juventude entre línguas e filosofia, geografia e política. Estudara álgebra, mas encantara-se das leis. De advogado tornara-se assessor de ministro de tribunal de onde partiu esta noite.

A caminho de casa, teve ainda o filho nos pensamentos. Quisera terminar o trabalho antes que o menino dormisse, como se carecesse de vê-lo. Rira-se por sentir saudade do filho a quem vê todos os dias, e por isso mesmo menosprezara o sentimento. Talvez, fora um aviso que Víctor não percebera. Certo fora seu atraso entre tantos papéis e detalhes.

Uma parada no caminho. Neste ato entra em cena o outro coadjuvante. Zé do Pó olha do canto do olho o homem de terno e gravata frouxa hesitando em meio corpo afora a porta. Puxando a carteira, Zé conta dinheiro imaginário e dissimula um depósito em envelope. Víctor segue a outro caixa eletrônico.

Zé do Pó é homem embrutecido. Com a alma sulcada pelas intempéries da vida e personalidade calçada a malho, cauterizara-se. Nascido sem pai, criado sem mãe, aprendera dos murros e pisões o caminho da sobrevivência. Encomendara a morte ou às drogas ou aos traficantes dessas. Com dívida de morte, saíra em desespero da boca a buscar uma vítima.

Destemido, talvez pela analgesia da droga ou do juramento de morte, Zé, de faca apontada à nuca de Víctor, aproximou-se ordenando o saque. O susto lhe correu dos ouvidos aos nervos, fazendo-o retesos os músculos. O pensamento não o acodia. Ira e temor se confundiam dentro de si. Quis reagir, mas lembrou-se do filho que àquela hora o aguardava dormindo. Foi-lhe necessário o toque da lâmina à carne para anunciar sua cooperação em troca da própria vida.

A máquina já entregava o dinheiro quando o comparsa de Zé abriu a porta apressando-o. O homem da gravata frouxa pensou em liberdade, o do pó, em outra possibilidade. Víctor foi seqüestrado.

Vexado a murraças, palavrões e ameaças, era conduzido em seu sedan a destino incerto. Zé iria à boca negociar a dívida. Tinha espécies de valores pequenos e grande: uma vida, um carro e dinheiro. Porém, não quis esperar tanto por mais pó e bebida. Da escala em um inferninho qualquer, seguiram para um ermo plantado de pinheiros onde a luz da lua parecia brilhar o chão seco.

O homem do pó queria divertir-se um pouco mais com o medo de Víctor, que realizara em pensamento a morte iminente. O carro parou e Zé chutou-o para fora. O comparsa saiu cambaleante com a garrafa de pinga. De faca apontada para o refém, o homem cauterizado ameaçou deixá-lo vivo apenas para ver sua família sendo abusada.

Neste instante, os pensamentos de Víctor embaralharam-se. Via a esposa, o filho, a si próprio mortos. Havia no seu íntimo dor, pesar, rancor, ódio, ódio, muito ódio… E aquele sentimento dúbio de temor e ira efervesceu em cólera. Não era mais um homem de faculdades lapidadas a estudo, tornou-se em monstro.

De joelho no chão esperando como um cordeiro calado o abate, deixou sair de si o urro que lhe arranhava a alma e içou-se como besta impetuosa, arremetendo o próprio crânio contra o queixo de Zé. Este, tomado de surpresa e analgesia, não pôde esboçar defesa. Caiu sem consciência de que sua vida terminaria, sem ter segunda chance, sem querer render-se à vida ingrata, mas dobrou a cerviz e sucumbiu.

Víctor arrancou a gravata, olhou última vez o homem que matara e não sentiu remorso. O comparsa bêbado temeu-lhe os olhos em fúria, tratando de desaparecer por entre os pinheiros. Retomado o sedan, o homem sem gravata foi para casa, desta vez, sem parada no caminho.

A alva despontava no horizonte quando seu filho encontra-o sentado na sacada a observá-la.

— Papai! — correu para dar-lhe um abraço, mas parou subitamente.

O menino olhou-o de baixo a cima, estranhando a roupa suja e o rosto grande arroxeado. Víctor adiantou-se em explicar:

— Papai caiu, filho!

— Você ‘tá igual o moço da rua. Ontem, eu e a mamãe indo pro carro e tinha um moço todo sujo no chão. Ele brigou comigo, pai! Disse que era tudo culpa minha. Mas eu juro, papai, eu não fiz nada, nada mesmo. Mamãe disse que ele é moço da rua.

Víctor olhou profundamente nos olhos grandes do menino e disse:

— Não é culpa sua, meu filho. Não é culpa de ninguém.

Com o abraço afetuoso guardado desde o dia anterior, mandou-o arrumar-se para a escola, voltando a refletir.

Julgou que violência não tem cor nem preconceito, não tem marginalização social nem legítima defesa. Violência tem sim origem, a alma humana caída, que é a mesma de todo homem pobre, branco, preto ou rico. Em tom tão baixo que mais parecia um pensamento, Víctor concluiu:

— Não é culpa de ninguém, mas a culpa de ninguém é de todo mundo.

Bruno Romaneli
Setembro/2008


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2 respostas

24 10 2008
Marianna Villaça Batista

Querido Bruno,

fiquei impressionada com o seu domínio das palavras e ao ler o seu texto pude compreender que, a sensibilidade com as mesmas são para poucos. Se sinta um privilegiado por tal dom, e nunca, nunca mesmo, deixe de escrever, uma vez que essa arte para muitos tem sido algo totalmente relevante. Me identifiquei muito com essa sua caracteristica, pois às vezes, só consigo passar o que sinto através desse artifício de escrita.

com carinho,

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Marianna Villaça Batista

25 03 2009
Jessica

Bruno, tudo bem?

Bom, estou escrevendo algo agora. E não sei com que coragem que passo o link para você poder dar uma olhada.
Seus contos, crônicas, ou sei lá como os chama, tem uma maneira de tornar especial o que poderia ser uma simples matéria de reportagem no jornal das 8.
Quanto aos meus escritos, creio que ainda são muito pobres em maturidade. Mas tentar não faz mal, naõ eh mesmo?

um abraço

Jessica Veridiana

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