De gramática na mão, estudo em demasia na cabeça e tempo de falta pra escrever os mais de 5 textos que tenho em mente, deparei-me com um conto tão bem escrito que fui obrigado a lê-lo todo, e não só isso, mas também a ir em busca de referências de seu autor. Entre uma seção sobre vírgula e outra sobre crase, conheci o talento do imortal José Cândido de Carvalho. E com esse texto inauguro uma nova seção no blog, “Textos dos Outros”.
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Era Borjalino Ferraz e perdeu o primeiro emprego na Prefeitura de Macajuba por coisas de pontuação. Certa vez, o diretor do Serviço de Obras chamou o amanuense para uma conversa de fim de expediente. E aconselhativo:
— Seu Borjalino, tenha cuidado com as vírgulas. Desse jeito, o amigo acaba com o estoque e a comarca não tem dinheiro para comprar vírgulas novas.
Fez outros ofícios, semeou vírgulas empenadas por todos os lados e foi despedido. Como era sujeito de brio, tomou aulas de gramática, de modo a colocar as vírgulas em seus devidos lugares. Estudou e progrediu. Mais do que isso, saiu das páginas da gramática escrevendo bonito, com rendilhados no estilo. Cravava vírgulas e crases como ourives crava as pedras. O que fazia o coletor federal Zozó Laranjeira apurar os óculos e dizer com orgulho:
— Não tem como o Borjalino para uma vírgula e mesmo para uma crase. Nem o presidente da República!
E assim, um porco-espinho de vírgulas e crases, Borjalino foi trabalhar, como escriturário, na Divisão de Rendas de São Miguel do Cupim. Ficou logo encarregado dos ofícios, não só por ter prática de escrever como pela fama de virgulista. Mas, com dois meses de caneta, era despedido. O encarregado das Rendas, funcionário sem vírgulas e sem crases, foi franco:
— Seu Borjalino, sua competência é demais para repartição tão miúda. O amigo é um homem de instrução. É um dicionário. Quando o contribuinte recebe um ofício de sua lavra cuida que é ordem de prisão. O coronel Balduíno dos Santos quase teve um sopro no coração ao ler uma peça saída de sua caneta. Pensou que fosse ofensa, pelo que passou um telegrama desaforado ao Senhor Governador do Estado. Veja bem! O Senhor Governador.
E por colocar bem as vírgulas e citar Nabucodonosor em ofício de pequena corretagem, o esplêndido Borjalino foi colocado à disposição do olho da rua. Com uma citação no Diário Oficial e duas gramáticas debaixo do braço.
José Cândido de Carvalho, 1984.
Muito bom o texto!!! Adorei!!! Quem é este autor? E da onde?
gostaria de receber textos cômicos.
vocês tem como me mandar?
Olá, Priscila e Leonardo!
Este é um site pessoal, Leonardo, onde posto os textos que escrevo. Não costumo mandar textos por email, mas você pode acessar o site e lê-los ou inscrever-se no feed (canto superior direito da página).
Priscila, este autor é famoso e excelente escritor. Foi membro da Academia Brasileira de Letras (cadeira 31, posição 5). Era fluminense.
Um grande abraço.
Caro Bruno,
Muito interessante seu blog. Cheguei aqui pesquisando por ‘mente cansada’ no Google, e logo o texto inicial que encontrei impressionou-me. Parabéns!
Continuei no blog e cheguei neste texto. Não resisti em fazer este comentário…
“— Não tem como o Borjalino para uma vírgula e mesmo para uma crase. Nem o presidente da República!”
Isto me fez pensar que, HOJE, 26 de Janeiro de 2009, esta frase soa um tanto quanto engraçada!
Abraços e parabéns novamente pelo blog,
Paulo Franzoni
Hahahaha!!!
Muito boa a sua observação, Paulo!
Valeu e
Um grande abraço.
Pois é Bruno, faltava ainda este texto.
Agora sim posso pedir a minha estrelinha, mais que merecida..hehe
“— Não tem como o Borjalino para uma vírgula e mesmo para uma crase. Nem o presidente da República!”
Certamente essa foi das melhores frases! Muito bom!
fica no Senhor
abraços
Jessica
Então, Jessica, realmente a estrelinha é mais que merecida! (risos)
Mais uma vez agradeço pela boa vontade de ler todos os textos!
Um grande abraço!