Como Estragar um Perfeito Domingo Qualquer

28 05 2006

Hoje, 28 de Maio de 2006, é Domingo. Estou trabalhando na revisão bibliográfica da minha monografia de graduação. Não é a forma mais engraçada de se estragar um Domingo, mas é perfeita. O texto é baseado na história criada por dois colegas há um ano atrás que, numa manhã fria de Segunda-Feira, me fizeram rir durante todo o longo caminho entre o centro da cidade e os campos de plantação, onde, sabe-se lá porquê, resolveram construir o prédio da universidade.

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Ah, hoje é Domingo! O dia dado por Deus para o descanso e Pojanelo sabe muito bem disso, tanto é que nem fez questão de acordar cedo para ver a corrida de Fórmula 1.

Quando resolveu levantar-se, lá para uma e meia da tarde, tinha a idéia pronta de como seria seu Domingo; era perfeita! Futebol, cerveja, assistir a um DVD — talvez com a namorada — e cama outra vez. Com os braços cruzados, apoiados sobre a barriga de chop que ele alimenta e faz crescer há mais de uma década, exclamou:

— Um perfeito Domingo qualquer! Putz, ainda tá chovendo!

Sinto em desaponta-lo, mas é que esse Domingo qualquer não vai ser nada perfeito. E tudo começa no meio do primeiro tempo. Ele se estica para atender ao telefone sem tirar os olhos da cobrança de escanteio. É a namorada.

Pojanelo é um quarentão que, digamos assim, faz coleção de ex: ex-namoradas, ex-esposa, ex-carro, ex-apartamento-comprado-no- -financiamento-a-perder-de-vista e até ex-filho ele arrumou, mas isso é outra história. Depois de desfeito seu casamento, o número cresceu ainda mais, em razão exponencial.

Ela ligou convidando-o para ir passear na feira que acontece no centro de convivência da cidade. Façamos uma pausa. Pojanelo, um quarentão, sentado no sofá em dia de Domingo, assistindo a uma partida de futebol entre 2 times quaisquer — sendo futebol tá valendo —, com a lata de cerveja apoiada na barriga de chop, pensando sobre nada em especial, recebe a proposta de ir a uma feira de cidade de interior em um dia chuvoso.

Com certeza ele continua prestando atenção ao lance — a título de curiosidade, o jogador que cobrou o escanteio chutou mal e foi tiro de meta — e nem pensa para responder. O cérebro de um quarentão automatiza as respostas para esses tipos de convites e nem perde tempo com pensamentos. Mas o que parece é que o cérebro de Pojanelo está mal automatizado, porque mesmo sem pensar ele disse sim.

Talvez tenha sido porque a namorada é nova, de silhueta tipicamente brasileira, aquela cobiçada por brasileiros e estrangeiros, e ele, sentido-se bem ou não, é um quarentão com barriga de chop. Mas seja como tiver sido, com ou sem pensamentos, a reposta “sim” acabou por estragar o Domingo qualquer de nosso amigo.

Chegando a feira… ah, o final do jogo ficou no 0 a 0 mesmo. Eram dois times rebaixados da primeira divisão se enfrentando na segundona; nada de espetacular. Então, assim que eles chegaram a feira, a chuvinha fina, que caía o dia todo, engrossou e o céu desabou.

A namorada ficou na entrada para não molhar o cabelo e Pojanelo foi estacionar o carro. Voltou tão molhado que parecia ter tomando um banho, e com o humor levemente alterado, mas se conteve, mesmo quando ela riu dele. Creio que levou 10% na esportiva e os outros 90 fingiu que não existiam.

Já na feira, aconteceu rapidamente o que sempre acontece em qualquer evento popular de cidade pequena, encontrar quem se quer ver e os outros, ou melhor, as outras.

A namorada de Pojanelo resolveu tomar um quentão e a atendente era a última ex-namorada do quarentão. Embora a frase rime, o reencontro deles não foi nada poético. O namoro anterior não terminou na melhor das situações, até mesmo porque a anterior foi trocada pela atual.

Bem, a ex é um tanto quanto ciumenta e ao ver Pojanelo ao lado de outra, não perdeu tempo em perder a compostura. O barraco se armou com um comentário irônico finalizado em chave de ouro — ela os denominou como o casal Garanhão e Galinha — que fez a namorada descer das tamancas, e já estava para atira-las na ex quando ele se pôs na frente. Sua intenção não era proteger a mulher, mas era impedir que o teatro ficasse ainda mais interessante para os espectadores que rapidamente se multiplicavam.

A namorada não admitiu que ele a defendesse e a ex incitava. O bate boca esquentou e Pojanelo ficou de coadjuvante, vendo cada vez mais gente parar para assistir a cena. Ele até tentava encerrar o espetáculo, mas não conseguia. A discurssão esquentou tanto que acabou sobrando um quentão para ele, não a bebida que abriu a bilheteria, mas um tapa da namorada, que segundo ela, havia sido sem querer.

Aqueles 90% propositadamente esquecidos voltaram. Pojanelo já estava convencido que seu Domingo perfeito agora era apenas uma idéia do passado. Estava molhado, humilhado com a multidão que se ria dele e bravo, muito bravo.

Mas em uma atitude sobre-humana, é bom que se diga, mais uma vez esqueceu dos 90 e levou a namorada pra longe da multidão, deixando a ex esbravejando sozinha.

Eles não andaram nem 10 metros e encontraram outras ex de nosso amigo. O mais interessante é que eram três e estavam juntas. Elas, muito bem humoradas, cumprimentaram-no com muita vivacidade:

— Oi, Garanhão! — gritaram.

Pojanelo queria desaparecer. Lembrava que poderia estar sentado no sofá, assistindo um filme; mesmo que fosse sozinho, seria o céu comparado com isso.

Três ex-namoradas juntas, amiguinhas e tão animadas assim, só pode ser uma coisa: o escarnecimento do ex-comum. E ele sabia muito bem disso.

Com um aceno discretíssimo ele sumiu na multidão e achou um local mais calmo na feira. A namorada o perdeu de vista e levou alguns minutos para acha-lo. Chegou a pensar em usar o serviço de rádio da feira, mas acabou, para a sorte do nosso amigo, encontrando-o antes.

Ela chegou esbravejando por ele a ter deixado para trás. E só parou quando um homem, alto, de porte atlético e de pé grande se aproximou deles. Era o ex dela.

O rapaz a cumprimentou com bastante intimidade, foi apenas um beijo no rosto, mas de um jeito que fez Pojanelo se colocar de pé e encarar o sujeito.

— Opa! Tudo bem? Eu sou o namorado dela.

— Ah, oi! Tudo bem, senhor.

O rapaz realmente disse sem medir a intensidade da palavra, mas ser chamado de senhor pelo ex-namorado de sua namorada que é mais novo, mais alto, tem o pé maior e ainda é mais forte, fizeram os 90% surgirem com força máxima nos punhos de Pojanelo. Ele cerrou os dentes, contraiu o corpo todo e já ia levantando o braço, quando a ex ciumenta se adiantou e deu um tapa na namorada do nosso amigo.

Ela vinha procurando por eles a feira toda. Como não é uma pessoa de levar desaforo para casa, ela veio terminar a briga, ou melhor, o espetáculo, pois rapidamente uma multidão se reuniu para ver as duas rolando no chão entre tapas e puxões de cabelo.

Pojanelo se viu impotente diante das duas. Não tinha ação. A situação era nova demais para o seu cérebro quarentão. Não havia nada automatizado para aquilo. E enquanto ele olhava perplexo, o rapaz tomou a iniciativa de separar as duas. Bem, pelo menos tentou até que um dos policiais escalados para fazer a ronda na feira chegou para dar fim a briga. O que ninguém esperava, nem mesmo elas, é que sobraria um quentão para a autoridade. E como de autoridade não se desacata, foi todo mundo para a delegacia.

Nosso amigo estava sentado, de cabeça baixa, ao lado do ex de sua namorada esperando ela voltar do depoimento. Estava mal. Achava que chegara ao fundo do poço. O rapaz, percebendo a situação de Pojanelo, quis ser gentil, deu um tapinha em seu ombro dizendo para ele ficar tranqüilo que tudo acabaria bem.

O cérebro automatizado, em um dia normal, teria finalmente se livrado de toda a raiva mandado um soco no meio da cara do rapaz. Não havia mais nada a perder, já estavam em uma delegacia mesmo. Mas como o cérebro de Pojanelo parece estar mal automatizado, ele deu o comando para o órgão errado. Ao invés da mão entrar em ação, foram os olhos que choraram.

Entre soluços e lágrimas o rapaz do pé grande abraçou nosso amigo, tentando acalma-lo:

— Calma, senhor! Vai tudo se resolver. Ninguém vai ficar em cana não. O senhor vai ver.

Um garanhão quarentão, aos soluços e lágrimas, abraçado ao ex da sua namorada em uma delegacia, sentido-se humilhado, escarnecido e ainda molhado por conta da chuva, parece-me a forma perfeita de se estragar um Domingo qualquer. Ninguém mereceria mais nada nesse dia, mas a vida as vezes é cruel. Pojanelo avista outra mulher entrando na delegacia, mais uma ex.

Ele se adiantou em dizer que ela chegara tarde para a briga, mas ela nem ligou:

— Não vim aqui pra brigar com ninguém, Pojanelo. Vim buscar meu namorado, esse com quem você tá agarrado. Será que dá pra me devolver?

Essa foi para acabar. Pobre Pojanelo, se tivesse escolhido o DVD…

Bruno Romaneli
Maio/2005


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2 respostas

10 04 2008
Nando Beckham

Muito Boa gostei mesmo

29 03 2009
Jessica

Caro Bruno,

Por acaso já leu O Cortiço, de Aluisío Azevedo? Ao ler seu texto, me lembrei como o autor conseguia descrever de forma orgânica e detalhada um cortiço.

Posso dizer que foi muito divertido vizualizar o “barraco” aprontado por esse tanto de ex! haha

Abraços

Veridiana

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