A Morte Amarela de Narciso – versão com narrador

11 02 2006

Bem, até hoje não sei direito o que quis dizer com esse texto. Pode ser uma crítica às escolas, à vaidaide doentia da sociedade ou apenas uma história cômica (um pouco nojenta, mas cômica). Quem sabe não sejam os três? Esta é a versão com narrador. Na versão original, escrita em 2001, decidi experimentar uma forma inovadora de contar uma história apenas com falas e pensamentos, ou seja, sem narrrador. Mas infelizmente não gostei do resultado. Então decidi, 5 anos mais tarde, rescrevê-la com um narrador e enfatizando a narrativa.

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De braços bem abertos e peito cheio o professor proclamava em alta voz:

— Que Deus tenha piedade de vossas almas, porque eu não terei!

Os alunos próximos a ele podiam enxergar todas as suas obturações. Alargava a boca o quanto podia. Pendia sua cabeça chata para trás, esbugalhava os olhos mais do que o natural e repetia a frase em todas as aulas.

Naquele dia, discursava sobre o mito de Narciso. Um homem que morreu por amar demais a própria beleza. “E afogou-se nas águas do próprio ego”, dizia o professor enquanto andava por entre as fileiras.

Estava para continuar a história quando um aluno franzino, no fundo da sala, ergueu a mão ligeiramente. Ignorando o gesto, ele continuava. Mas o rapaz insistentemente balançava a mão querendo sua atenção.

— O senhor acaso tem algo a acrescentar à aula?

— Professor, pelo amor de Deus, me deixa ir ao banheiro!

A turma caiu em gargalhadas. O professor não gostou:

— Mas vejam só, o rapaz interrompe meu raciocínio, desconcentra toda a turma e tudo isso só para ir ao banheiro? Não, a resposta é não. Aguarde o sinal que já está para tocar… Bem, onde eu estava mesmo? Ah, sim…

O aluno insistiu:

— Professor, o senhor não está entendendo! Eu preciso ir ao banheiro A-GO-RA!

O professor olhou-o com seus olhos esbugalhados por sobre os óculos meia-taça, arreganhou a boca e estava para elevar a voz com algumas palavras de advertência quando subitamente o sinal tocou.

O rapaz não pensou duas vezes. Deu um pulo da carteira e andou o mais rápido que conseguiu em direção a porta. Porém, o professor adiantou-se e o prendeu por mais alguns instantes:

— Que história é essa, meu jovem? O senhor me atrapalhar desse jeito? Passe-me seu número de chamada para eu retirar um ponto de sua nota por mau comportamento em sala.

— O quê?

Tão logo percebeu que o homem só sairia de sua frente mediante o tal número, pois na escola nomes pouco importam, resolveu dizer, mesmo com muita relutância.

O professor, então, abriu caminho. Seus olhos esbugalhados ainda acompanhavam o rapaz quando ele já se acotovelava pelos corredores cheios de alunos.

Como o gado que corre desembestado para o pasto quando as porteiras se abrem, os alunos saem das salas ao ouvirem o sinal do intervalo. O pobre rapaz teve de achar passagem em meio a cotoveladas (e não foram poucas), pisões de pés, empurrões e nenhum pedido de desculpa. Estava desesperado demais para boas maneiras.

Chegou à porta do banheiro esbaforido. Teria entrado derrubando o garoto que obstruía a passagem se ele não fosse a parede de músculos que era.

Em uma situação normal, com certeza ele pediria desculpas para evitar um nariz sangrando e dois ou três dentes quebrados, mas como se tratava de uma emergência, usou do seu bom humor:

— Sai A-GO-RA da minha frente que eu preciso passar!

O rapaz fechou ainda mais o semblante, cruzou os braços (as duas meninas que conversavam com ele se animaram muito; bobinhas, coitadas!) e o desafiou a repetir a frase.

O pobre aluno já suava de aflição, não se agüentava mais, estava indo além de suas forças. Não conseguia mais raciocinar para evitar o pior:

— Sai da minha frente ou eu vou fazer em cima de você! — ameaçou desabotoando a calça.

A muralha sentiu a gravidade da situação e recuou, achando por bem abrir caminho.

Segurando-se pelas paredes, ele tentava em vão encontrar um sanitário livre. Para onde olhava só via portas fechadas e filas.

— Devia ter feito na sala mesmo, em cima do professor! — resmungou rindo, o que quase lhe custou as calças molhadas.

Ainda havia a remota esperança de encontrar um mictório livre. Arrastou-se até o outro lado do banheiro para constatar o que já sabia.

Sem mais o que esperar, abriu o zíper e foi em direção a pia. Era uma emergência! Não parava de pensar nessa frase.

Algo lhe chamou bastante a atenção. Todos no banheiro estavam ali por conta das sofridas bexigas que eram forçadas a agüentar horas de aperto por aulas intermináveis, exceto um rapaz, a quem julgou muito feio, o qual incansavelmente olhava-se no espelho.

Para surpresa ainda maior, o tal rapaz não estava ali se queixando com o espelho, mas admirando seu próprio reflexo. Olhava o rosto de vários ângulos. Arrumava o cabelo. Rearrumava. Arrumava novamente. Outra olhada por outro ângulo. Mais uma ou duas arrumadas.

A dois passos da pia, sentiu a bexiga romper. No saque mais rápido que já fizera, puxou o sexo para fora e deixou fluir.

O alivio ganhou ares de prazer, fazendo-o lembrar-se das épocas de criança quando era pequeno e ia ao sítio do avô. Em meio as suas perambulâncias por entre a plantação, encontrava o pobre cão do sítio. Já avançado em dias, o animal era cansado e dormia a maior parte do tempo. Sentia prazer em acordar o bichano com uma brincadeira de muito mau gosto. Chegava sorrateiro e parava perto o suficiente para abaixar as calças, enrolar o sexo nas mãos, mirar bem e esguichar no pobre animal, que acordava em um susto e corria desorientado.

Logo o rapaz que se via absorvido pelo próprio reflexo e auto-contemplação voltou à realidade. Sentiu o cheiro nauseante do banheiro, agora mais forte que nunca. Uma sensação quente, começou a lhe incomodar as costas. Quando virou-se para saber do que se tratava, paralisou em choque. Encontrou um aluno esguichando em si.

Para tentar amenizar a situação, gostaria de dizer que foi algo rápido, porém não foi. E dado à demora, um e depois todos estavam olhando pasmos para a cena. Risos começaram a ser ouvidos por todo o banheiro. Os curiosos das redondezas correram para lá querendo saber o que se passava.

Quando finalmente, terminou, o aluno agora mais aliviado do que nunca em toda a vida, olhou para o rapaz bem a sua frente. Ele tinha olhos assustados, que miravam seu reflexo na poça feita no chão; turvo e amarelado, fétido e quente. Caiu abraçando a última visão sua em uma poça de mijo.

A algazarra trouxe o professor, que entrou sério no banheiro, buscando o motivo de tanta risada. Encontrou o aluno, minutos antes atrapalhando a aula, agora com a arma do crime ainda a mostra. De um ímpeto incontrolável encheu os pulmões, alargou a boca, pendeu a cabeça e… riu! Riu tanto ou até mais que os outros.

Entre os azulejos regados durante o momento do alivio, onde o aluno mergulhara, nasceu, semanas mais tarde, um musgo amarelado e de cheiro ruim, que foi identificado pelos professores de Biologia como a flor de Narciso.

Bruno Romaneli
Fevereiro 2006 | Fevereiro 2001


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Uma resposta

14 04 2009
Jess

Caro Bruno,

Gostei da habilidade de usar alguns termos expressando bem a cena, porém não sendo grosseiro ou vulgar.

Divertido…rsrs

Abraços

Jessica Veridiana

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