O tom exagerado do texto só consegue ser menor que minha indignação pelo descaso com o transporte coletivo. Mas, andando de ônibus, posso dizer que vi muitas coisas interessantes, como o tal motorista que, pasmem, existe e foi a inspiração para o texto.
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Lá estava eu fazia bem uns 50 minutos e nada do ônibus passar. Não pense, o amigo, que eu esteja reclamando, mas é que eu e as outras dezenas de pessoas comigo temos o estranho hobby de esperar amontoados em pé em um ponto lotado num dia de chuva no fim de mais uma segunda-feira um ônibus que parece nunca vir. Meu avô dizia que chá de Boldo é que é ruim, mas eu digo que chá de espera é muito mais amargo.
Já não podia suporta nem mais uma dose do tal chá nem o fedor do time de basquete após o treino aglomerado ao meu redor, quando finalmente avistei o ônibus. Não sei dizer por que não me senti feliz. Talvez tenha sido uma mistura do cansaço com a lama, que a chuva causava, com o time de basquete que iria no ônibus junto comigo, com o fato do motorista buzinar incessantemente para um carro que estava no sua frente, parado no semáforo fechado. Bem, mas de qualquer forma seria apenas mais uma viagem. Um motorista calmo e uma viagem tranqüila, não é?
Como eu disse, o motorista estava preso atrás do carro no semáforo fechado, que fica a poucos metros do ponto. Com a chuva, pensei que ninguém se daria ao trabalho de correr até ao ônibus. Então, civilizadamente, ele viria até ao ponto e, sem pressa, encostaria para pegar os passageiros. Ainda sonhava com isso, quando o time de basquete se adiantou em direção ao semáforo. Como não me chamo Alice e não estava fazendo um tour pelo País das Maravilhas, tomei meu lugar à chuva junto com os outros que batiam na porta pedindo para o motorista abrir.
O homem simplesmente não notava nossa presença. Estava ocupado demais em atormentar o carro a sua frente com a buzina. O pessoal do time continuava batendo, mas o motorista era indiferente a nós. Então, o capitão deles assumiu a filosofia do meu avô, “nessa vida ou somos cavalo ou cavalheiro”, e organizou o time para um ataque agressivo ao veículo. Entramos a patadas!
O ônibus. Ele era velho e, coitado, sofria do Mal de Parkinson. Não havia cadeiras, eram verdadeiros bancos de praça adaptados. O apoio para os passageiros que vão em pé, ou seja, uns 100, era desesterilizado, sem uma partícula de limpeza sequer. As barras ao redor do cobrador eram tão bem entrelaçadas que colocavam inveja a qualquer Bangú.
Os passageiros eram no mínimo interessantes. Fora o time de basquete, havia um grupo de ladrões ao redor das barras. Eram tantos que precisaram se organizar, pegando até senha para poder fazer seu assalto com calma. E todos obedeciam ao código: “Sempre deixe pão para o próximo ladrão”. Havia artistas a bordo. Um cantava e o outro dançava. Para mim era quase um ritual de despacho, mas como a senhora ao meu lado disse ser uma dança folclórica, então, vamos deixar assim. Essa velhinha foi alguém surpreendente. Ela é do tipo livro escancarado. Contou-me tudo desde os seus dez anos de idade: aniversários, passeios, bailes, flertes, casamento, filhos, Copacabana, o porquê dela ser um hacker e ter invadido os computadores da Receita Federal, quanto custa seu tratamento para a pressão alta, entre outras coisas. Parece, não sei porquê, que eu tenho cara de psicólogo. Talvez as velhinhas leiam na minha testa: “Conselheiro sentimental”.
O motorista: meia-idade, não muito pálido; não, muito pálido. O homem precisava de uma transfusão de sangue pra recuperar a cor de vivo. Cabelo arquitetadamente repartido ao meio e emplastado com alguma espécie de resina. Isso mesmo, resina! Porque nem o Gumex do meu avô deixava o cabelo tão engomado assim. Já o perfume do motorista era indefinido; uma mistura de formol com disco do Wando esquecido no fundo do armário. As bochechas. Bem, as bochechas eram estranhíssimas. Era como se um dia, quando moleque, tivesse tentado engolir um pedaço de cano e falhado na tentativa. Mas o cano não saiu da boca, fora impossível cuspi-lo e ele ficou lá atravessado. Talvez por isso me lembrasse um bulldog, mas com bochechas esticadas.
Ele era o tipo de gente que um dia morreria trabalhando. Não porque trabalhasse muito, mas porque era um arranha-céu de nervos. Não suportava ver um carro a sua frente que já ia logo buzinando e elogiando: “Chifrudo, filho da piiiiiiii, seu piiiiiiii, piiiiiiii”, entre outros. Quando o carro insistia em ficar, ele jogava farol alto, colava na traseira, esmurrava a buzina. Mas acho que às vezes ele se divertia. Abria um estranho sorriso quando alguém se atrasava para pegar o ônibus. Ele fazia questão de ignorar o pobre cidadão que muitas vezes vinha correndo esbaforido pedindo para o ônibus parar e seguia viagem. Era sua filosofia: “Se você quer algo que pare, tire a bateria de um relógio”. Depois de ver como ele dirigia não me espantei mais com o que li em sua testa: “Formado com nota máxima na Escola de Estupidez ao Volante”.
Mas nesse dia, ele foi forçado a esperar uma mulher manca, baixa e gorda, de roupa estranha, cabelo despenteado e voz engasgada. Ela começou a correr desesperada em direção ao ponto de ônibus, gritando para o motorista espera-la e dando sinal. Ele foi logo abrindo seu sorriso e acelerando. Mas o inesperado aconteceu. Ele ficou mais pálido do que já era, se é que isso é possível. O sorriso deu lugar a uma cara fechada, ou seja, a cara de costume. Ele acabou parando. Confesso, amigo, que não entendi até olhar com mais atenção.
Havia um fiscal parado no ponto. Não sei se o amigo sabe, mas os fiscais são os maiores inimigos dos motoristas de ônibus. Eles são uma classe especial dentro do departamento de trânsito. Os motoristas os temem sobremaneira. Ainda mais quando lêem as testas dos fiscais: “Dura lex, sed lex” que quer dizer: “A lei é dura, mas é a lei”. E da lei, eles não podiam escapar se houvesse um fiscal a espreita.
Os fiscais não vão à escola e nem precisam, são instruídos desde o berço para esse serviço. É claro que a grande maioria gostaria de ser astronauta, bombeiro, vendedor de pneus ou policial, mas são forçados a se tornarem fiscais. Então, para descontar a insatisfação profissional, multam os motoristas por qualquer errinho. Dependendo do humor, alguns acabam até perdendo seus empregos. E como humor de fiscal em dia de chuva é, como já dizia meu avô, mais curto que perna de cobra…
Enquanto esperávamos a estranha mulher, o motorista foi ficando cada vez mais impaciente e começou a suar. Nesse momento, minhas narinas já estavam tão acostumadas com o cheiro abafado e úmido do time de basquete e dos outros tantos passageiros, que isso realmente não fez muita diferença.
Ele olhava pelo retrovisor e nada da mulher chegar. Não suportava mais esperar, porque jamais havia esperado por um passageiro. Tentou discretamente sair com o ônibus, mas o fiscal estava atento e tratou de sacar seu bloco de multas. O coração daquele homem foi se apertando, apertando, o ar faltando e nada da mulher chegar. Ele estava renegando sua própria filosofia, estava indo contra a certeza que tinha neste mundo. E a mulher não chegava. E não chegou; ela caiu no meio da calçada. Foi no mínimo engraçada a cena.
O homem não agüentou, foi demais para ele e acabou enfartando. Então procuraram alguém que pudesse prestar socorro. Os ladrões trataram de fugir, o cobrador estava preso atrás das grades e os artistas não paravam de rir da mulher caída na calçada e imitavam-na sem parar. A velhinha se animou a fazer um boca-a-boca, mas o capitão do time de basquete adiantou-se em organizar a jogada do socorro. Com um soco no peito, um deles recuperou a posse da vida do homem. A partir daí, foi questão de administrar a jogada. De metros em metros, esquivavam-se dos carros na rua e trocavam a posse do motorista até alcançarem o posto de saúde. O capitão lançou o homem pela janela e voltou comemorando a vitória. Até antes do arremesso eu estava certo de que o homem sobreviveria, mas acho que o capitão se empolgou no lance. De qualquer forma, o importante é que alguém se importou com aquele motorista.
Já o fiscal sumiu no meio da multidão que esperava no ponto e nós descemos para pegar outro ônibus.
Pensei que tomaria mais alguns litros de chá de espera, mas fui surpreendido. Foi como uma visão, quase não acreditei. Veio como uma luz. Era azul celeste, todo iluminado, tinha suspensão a ar e ar-condicionado. Nossos braços se estenderam dando sinal sem que notássemos. E ele parou.
Acotovelamos-nos para entrar, por puro costume. Porém o motorista não estava nem um pouco com pressa e até nos saudou com “boa noite”. O que me pegou totalmente despreparado. Nem consegui desejar nada para o homem, tudo que fiz foi ler em sua testa: “Formado com nota insuficiente na Escola de Estupidez ao Volante”.
Como já dizia meu avô, amigo: “O mundo já não é mais o mesmo”, mas se olharmos para ele com os mesmos olhos, sempre leremos as mesmas coisas. Então, deixe-se surpreender, pois como já dizia o trocadilho da época do meu avô, “fora motorista e cobrador, tudo nessa vida é passageiro”.
Bruno Romaneli
Meados de 2000 | Maio 2005
axei bem legal
vou koloka-lo em meu trabalho de potuguês
brigadinha