Este eu considero meu primeiro texto. É claro que antes disso fiz redações e tal, mas esse aqui eu tive vontade de escrever, não fui ameaçado com um zero no boletim. A história fala sobre ver além das aparências, mesmo as pessoas mais rabugentas.
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Não posso dizer que não era travesso, pois era. Era um pequeno peralta, muito brincalhão, engraçado por natureza. Fazia as pessoas rirem sem grandes dificuldades. Disseram-me uma vez que a sua mãe ao concebê-lo olhou o garoto e desatinou a rir, em vez de chorar como é comum das mães.
Mas havia uma pessoa, uma velha manca da casa 28 que não suportava as travessuras de Pedrinho Siro, muito menos conseguia rir do garoto. Para mim , desculpe-me a intromissão na história caro leitor, mas é que presenciei tal acontecido: “que acontecido?” Ah, é mesmo! ainda não contei, mas conto agora. Uma vez quando estava passando em frente a casa de dona Joanete Bugenrata ouvi essa amaldiçoar Pedrinho — engraçado, maldição que se transformou em benção.
De princípio, não entendi muito bem porque a velha saiu de sua casa, furiosa, mancando e gritando com Pedrinho, e só vim a entender quando essa me chamou, dois dias depois lá para fazer o orçamento de um espelho da sala de jantar. Vi todos aqueles cacos de espelho espalhados pela sala mas não disse nada, quem se explicou sem que eu pedisse foi ela:
— Os cacos atrapalham?
— Não muito, sem problemas.
— A menina que faz a limpeza adoeceu e não pôde vir nestes últimos dias. Eu teria limpado, mas a idade não me deixou … — blá-blá-blá.
Eu naturalmente falo pelos cotovelos, mas essa velha rabugenta — perdão mas não consegui lembrar de outro adjetivo para a velha — suga nossa vida, nossa vontade de rir, de falar. Ela é assustadora: largura: uma porta; altura: meia porta; pernas: desiguais; cabelo: despenteado até o ultimo fio; voz: ladainha resmungüenta.
Onde é que estávamos mesmo? Ah é! a velha estava falando, digo, resmungando:
— Se aquela peste em forma de menino não me tivesse aprontado, ah! como merece umas boas palmadas. Aliás, correadas. Mas deixe estar que a vida se encarrega de lhe dar o troco. Não sou supersticiosa, mas depois de quebrar um espelho deste tamanho tomara que tenha a vida toda de azar. Aquela peste merece muito mais de sete anos de azar, ah! como merece. Eu avisei — não seria amaldiçoei? —, e quando eu aviso é tiro e queda. A vida daquela peste há de ser azarada.
Que mulher rabugenta, desculpe-me caro leitor, mas é que ainda não achei adjetivo melhor para a velha. Bem, quanto ao garoto não posso negar que não tivesse uma pequena rixa com os espelhos. Ele não podia passar em frente a um espelho sem parar em frente deles. Mas não pense que era para se olhar. Era para dar uma arranhadinha, um tapinha, um safanão discreto e quando menos se esperava lá estava ele pronto a arremessar uma pedra. E foi assim que ele quebrou um espelho meu, certa vez. Pediu-me desculpas e disse que pagaria. Eu aceitei só as desculpas, mas no dia seguinte lá estava ele com o dinheiro para me pagar. Não achei que fosse um mau garoto. Então a velha continuou :
— Acredite o senhor que o menino ainda teve a cara-de-pau de me pedir desculpas! Chutei ele para fora daqui — com qual perna? — Ele tem mais que me pagar o prejuízo. Ah! ainda teve a galhardia — ga-o-quê? — de me deixar um bilhete: “ Querida dona Joanete, peço mil desculpas pelo que fiz. Prometo pagar tudo à senhora. Mas não se zangue mais com isso, pois estou muito arrependido, é verdade. Mudando de assunto, o que é o que é uma linha curva que deixa tudo em linha reta? Assinado Siro.” — falou tudo isso num tom de deboche que me deu nojo. — Até parece que um moleque de sete anos sabe escrever assim e ainda assinar. Acabou?
— Acabei — graças a Deus — fica em …
— Pode entregar o orçamento na casa 14. A mãe do menino ficou de pagar. Coitada dessa mãe! Ter uma peste dessas. Qual foi o pecado dela para pagar tão caro?
— Até logo.
— Já vai? Então até.
Não agüentava mais ouvir aquela mulher falar, parece que só abre a boca para reclamar. Que mulher rabugenta, desculpe-me amigo, é que ainda não encontrei adjetivo mais adequado.
Bem, os anos passam, e passaram mais depressa do que de costume, mas não vai dar para contar em tão poucas linhas — pretendo ser breve — toda a sorte do nosso pequeno peralta que infelizmente já não é. Conto algumas para o amigo leitor não ficar chateado comigo.
Uma vez ele preencheu um desses cupons concorrendo a uma casa, eu preencho esperando não ganhar, mas é para ver se ganho, entende? Mas com Pedrinho a coisa é diferente. É só ele preencher que ganha. Isso é que é sorte. Este foi o primeiro prêmio dentre muitos outros (carros, fogões, geladeiras, televisões gigantes, fornos microondas, viagem para a Disney World, anos de compras grátis em diversas lojas …). Uma vez quando eu ia preencher um cupom para concorrer a um computador ele passou na minha frente e eu não resisti:
— Pedrinho, preenche pra mim, filho. Cortei minha mão com vidro.
Eu realmente estava com a mão cortada, a esquerda. Só que sou destro. Ele preencheu e me disse:
— Sabe como eu faço para ganhar? Eu penso na dona Joanete. Isso me dá sorte, não sei por quê. Vai ver é que por trás daquela aparência de velha mal-humorada ela realmente seja uma boa pessoa. Sabe, às vezes as pessoas aparentam ser o que elas na verdade não são.
Realmente havia um bom coração naquele rapaz porque ver uma boa pessoa atrás daquela velha rabugenta — é, acho que não vou conseguir achar outro adjetivo para a velha. Mal-humorada? Não, ela é mais que isso — não é coisa fácil.
— Ganhei, ganhei! — entrei na loja gritando e comemorando como se fosse uma novidade.
Dias depois encontrei Pedrinho e lhe disse:
— Rapaz, ganhei aquele computador.
Assim que acabei de falar, o canhoto de comprovação voou da minha mão e foi cair aos pés da velha. Então, aconteceu o inimaginável. Ela abaixou-se — com muito esforço —, pegou o canhoto, veio em minha direção e me entregou-o. Meu queixo caiu 1,75 metro. Depois disso ela voltou a si e saiu resmungando em voz baixa.
Então, Pedrinho me disse:
— Viu? Ela não é tão ranzinza e rabugenta como você diz e aposto que ela pode até rir, não, morrer de rir.
— Isso é impossível — sentenciei com firmeza na voz.
Nunca vi essa velha sorrir, muito menos rir. Morrer de rir é impossível, impossível.
Mas eu estava enganado.
Foi num enterro, num dia triste que eu, se sofresse de uma profunda melancolia, poderia descrever assim: “O céu se negava a mostrar os d’oiros raios que emanam de seu esplendor. Turvo como a cor da grauna se revolvia em si e chorava frias lágrimas de morte.”. Mas não seria nem uma idealização, seria mentira mesmo, pois no dia em que Pedrinho descia sete palmos para dentro do chão o céu era tão azul como jamais vi.
Estávamos todos sentados e chorando quando de repente reconheci a senhora que estava sentada ao lado de um dos muitos amigos de Pedrinho.
— Não pode ser, a rabugenta — é não achei mesmo outro adjetivo — veio. Que mulher mais, mais …
Meu pensamento foi interrompido por um índice … um índice de …
— Não acredito. Eu poderia jurar que vi um sorriso no rosto da velha.
Eu não estava enganado. Começou com um sorriso e a boca da velha — sem comentários — foi se enchendo de risadas. Ela riu sem conseguir parar de rir. Riu, riu, riu e caiu defunta no chão. A cadeira tombou para trás e ela se foi deixando um sorriso no rosto rabugento.
“Com uma linha curva você deixou tudo em linha reta e nos conquistou. Por isso o amamos.”. Eis a escritura de sua lápide. A lápide de Pedrinho Riso, é claro! A lápide da velha eu não tive a curiosidade de ver.
Com o seu sorriso ele arrancava risadas e felicidade do coração das pessoas. Ele realmente foi um quebrador de espelhos. Ele era capaz de olhar através das pessoas e enxergar quem realmente elas eram. Creio que o seu sorriso tocou até mesmo a mais rabugenta das pessoas — para mim ela não era apenas rabugenta, porém mais que isso, ela era “Rabugenta” de nome.
Confesso que o sorriso da velha foi para mim como um último quebrar de Pedrinho. Desisti de vender espelhos. Hoje distribuo risos.
Bruno Romaneli
Início de 2000
Oi Bruno,
Devo-lhe dizer que este texto me surpreendeu. O simples começo não me fez esperar por uma conclusão tão bela. Parabéns ^^
Abraços
Jessica Veridiana